Esôfago de Barrett: Quando o Refluxo Começa a Virar Câncer

O Esôfago de Barrett é uma alteração celular no revestimento do esôfago causada pela exposição crônica ao ácido estomacal, comum em pacientes com refluxo de longa data. Essa condição substitui o tecido normal por um tecido semelhante ao intestinal (metaplasia), elevando significativamente o risco de câncer de esôfago. Embora muitas vezes assintomática, a detecção precoce via endoscopia e o monitoramento contínuo são as únicas formas eficazes de prevenir a evolução para um tumor maligno.
Dr. Octávio Rodrigues

Dr. Octávio Rodrigues

Cirurgião Gastrointestinal

Esôfago de Barrett | Dr. Octávio Rodrigues | Gastroenterologista

O Perigo do Esôfago de Barrett: Quando o Refluxo Começa a Virar Câncer

O Esôfago de Barrett é uma complicação séria da Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) de longa data. Trata-se de uma alteração na estrutura das células que revestem a parte inferior do esôfago, o tubo que conecta a boca ao estômago. Diferente de uma azia esporádica após uma refeição pesada, o Barrett ocorre quando o tecido esofágico sofre uma metamorfose defensiva devido à exposição crônica ao ácido estomacal. O grande perigo reside no fato de que essa alteração celular (metaplasia intestinal) é uma condição pré-maligna, sendo o principal fator de risco para o desenvolvimento do adenocarcinoma de esôfago, um tipo agressivo de câncer. Entender essa relação é vital para quem sofre de refluxo há anos.

A Anatomia da Mudança: A Evolução Silenciosa

O esôfago normal é revestido por células planas e escamosas, semelhantes às da pele. No entanto, sob ataque constante do ácido, o corpo tenta se “adaptar” substituindo essas células por outras em forma de coluna, semelhantes às do intestino, que são mais resistentes ao ácido. Embora pareça uma defesa inteligente, essa mudança é instável. Os sinais de alerta e fatores de risco incluem:

  • Histórico Longo de Refluxo: O risco é significativamente maior em pessoas que sofrem de azia e regurgitação crônica há mais de 5 ou 10 anos.
  • O “Silêncio” dos Sintomas: Ironicamente, alguns pacientes com Esôfago de Barrett sentem uma melhora na azia. Isso acontece porque o novo tecido é menos sensível à dor ácida, criando uma falsa sensação de cura enquanto a doença progride silenciosamente.
  • Perfil de Risco: Homens, caucasianos, com mais de 50 anos e com excesso de peso (obesidade central) compõem o grupo de maior risco estatístico.
  • Sinais de Alarme: Dificuldade para engolir (disfagia), perda de peso não intencional e vômitos com sangue indicam que a condição pode já ter evoluído para algo mais grave.

É importante notar que o Esôfago de Barrett não causa sintomas próprios; os sintomas sentidos são, na verdade, do refluxo que causou a lesão.

O Diagnóstico: Por que a Endoscopia é Insubstituível?

O diagnóstico do Esôfago de Barrett não pode ser feito apenas com base no relato clínico. É necessária a visualização direta e a análise tecidual. Durante a Endoscopia Digestiva Alta, o médico procura por uma mudança na cor do revestimento do esôfago (de um rosa pálido para um tom vermelho-salmão). A confirmação definitiva, porém, vem através da biópsia. O patologista analisará as amostras colhidas para confirmar a presença de “células caliciformes” (metaplasia intestinal) e verificar se há displasia (grau de anormalidade das células), que pode ser de baixo ou alto grau, indicando a proximidade com o câncer.

Conduta e Tratamento: Vigilância e Ação

Ao diagnosticar o Esôfago de Barrett, o objetivo muda de apenas “aliviar a azia” para “prevenir o câncer”. As estratégias de tratamento dependem do grau da lesão:

  1. Controle Rigoroso do Refluxo: O uso contínuo de Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs) é geralmente prescrito para reduzir a acidez gástrica e impedir danos adicionais ao tecido, embora não reverta a lesão já existente.
  2. Vigilância Endoscópica: Pacientes com Barrett sem displasia devem realizar endoscopias periódicas (geralmente a cada 3 a 5 anos) para monitorar qualquer evolução celular maligna.
  3. Terapias Endoscópicas (Ablação): Se houver displasia (pré-câncer), tratamentos minimamente invasivos são indicados. A Ablação por Radiofrequência é uma técnica que “queima” a camada superficial doente, permitindo que células saudáveis cresçam no lugar.
  4. Cirurgia Antirrefluxo: Em casos selecionados, a cirurgia (fundoplicatura) pode ser recomendada para parar o refluxo mecanicamente, especialmente se os medicamentos não forem eficazes ou desejados a longo prazo.

O câncer de esôfago é devastador, mas altamente evitável quando o Esôfago de Barrett é identificado e monitorado precocemente. Se você tem azia crônica, não se contente apenas com antiácidos de farmácia; investigue a causa.

Se você sofre de refluxo crônico ou precisa de uma avaliação especializada, agende uma consulta com o Dr. Octávio Rodrigues. Venha já visitar a nossa clínica.