Doença do Refluxo Laringofaríngeo (RFL): Desvendando o Mistério do Refluxo Silencioso
Quando se fala em refluxo, a primeira imagem que vem à mente é a da azia (pirose) e da dor no peito. No entanto, existe uma forma de refluxo que age sorrateiramente, sem os sintomas digestivos clássicos. É a Doença do Refluxo Laringofaríngeo (RFL), popularmente chamada de “refluxo silencioso”. Essa condição, que atinge a garganta e as vias respiratórias superiores, é frequentemente subdiagnosticada e pode levar a anos de desconforto, tosse crônica e problemas vocais. É um campo onde a expertise do gastroenterologista é crucial, muitas vezes em colaboração com o otorrinolaringologista.
A Diferença Fundamental: Dois Esfíncteres em Ação
O trato digestivo é protegido por dois esfíncteres musculares que atuam como válvulas. O Esfíncter Esofágico Inferior (EEI), entre o esôfago e o estômago, quando disfuncional, causa o refluxo gastroesofágico (RG) clássico, resultando em azia. O Esfíncter Esofágico Superior (EES), localizado na parte superior do esôfago, é a barreira que protege a garganta (faringe) e a laringe. O RFL ocorre quando o ácido e outras substâncias gástricas (como pepsina e bile) ultrapassam o EEI e, em seguida, falham a barreira do EES, atingindo as estruturas delicadas da laringe e faringe, que são muito mais sensíveis ao dano ácido do que o esôfago.
Sinais e Sintomas Não Típicos do Refluxo Silencioso
A ausência de azia é a característica mais marcante do RFL, levando ao termo “silencioso”. Os pacientes frequentemente buscam o médico por sintomas que parecem ser de origem respiratória ou otorrinolaringológica:
- **Tosse Crônica:** Persistente e, muitas vezes, pior à noite ou ao acordar.
- **Pigarro Constante:** A necessidade de “limpar” a garganta repetidamente.
- **Rouquidão (Disfonia):** Especialmente pela manhã, resultante da inflamação das cordas vocais.
- **Globus Faríngeo:** Sensação de um nó ou “bola” presa na garganta.
- **Dor de Garganta Recorrente:** Muitas vezes confundida com faringite.
- **Dificuldade para Engolir (Disfagia):** Principalmente para líquidos ou saliva.
A exposição crônica da laringe ao conteúdo gástrico pode levar a sérias complicações a longo prazo, incluindo laringite crônica, estenose subglótica e, em casos raros e de longa data, um risco aumentado de câncer de laringe, reforçando a necessidade de diagnóstico e tratamento precisos.
O Desafio do Diagnóstico e os Exames Essenciais
O diagnóstico da RFL pode ser desafiador, pois os sintomas são inespecíficos. O gastroenterologista utiliza uma combinação de avaliação clínica e exames:
- **Laringoscopia:** Realizada pelo otorrinolaringologista, revela sinais de inflamação na laringe, como edema e vermelhidão.
- **pHmetria de 24 Horas ou Impedanciometria-pHmetria:** Estes são os padrões ouro. A impedanciometria é particularmente útil na RFL, pois detecta refluxo não-ácido (gases ou líquido levemente ácido) que ainda pode ser irritante para a laringe.
- **Endoscopia Digestiva Alta:** Embora a RFL frequentemente ocorra sem esofagite, a endoscopia é importante para descartar outras causas e avaliar o Esfíncter Esofágico Inferior (EEI), que pode estar relacionado.
O tratamento da RFL exige uma abordagem mais intensa e prolongada do que o RG clássico, devido à alta sensibilidade da laringe.
Estratégias de Tratamento: Dieta, Medicamentos e Cirurgia
O tratamento da RFL é multifacetado e envolve:
- **Mudanças Comportamentais e Dietéticas:** São a base do tratamento. Envolvem evitar refeições grandes perto da hora de dormir (esperar 3-4 horas), elevar a cabeceira da cama, e eliminar ou reduzir drasticamente alimentos e bebidas que relaxam o esfíncter ou aumentam a produção de ácido, como cafeína, chocolate, hortelã, álcool, alimentos gordurosos e cítricos.
- **Terapia Medicamentosa:** Geralmente inclui Inibidores da Bomba de Prótons (IBPs) em doses mais altas e por períodos mais longos do que no RG, para reduzir a acidez gástrica.
- **Opção Cirúrgica (Fundoplicatura):** Para pacientes que não respondem ao tratamento clínico otimizado, que apresentam um esfíncter inferior muito fraco, ou que desejam interromper o uso contínuo de IBPs, a cirurgia antirrefluxo (como a Fundoplicatura de Nissen) pode ser uma solução permanente. Este procedimento minimamente invasivo (geralmente por laparoscopia) reconstrói e fortalece a válvula antirrefluxo, impedindo que o conteúdo gástrico retorne ao esôfago e, consequentemente, à laringe.
A persistência no tratamento, especialmente nas modificações de estilo de vida, é fundamental para o sucesso a longo prazo e para evitar a progressão das lesões laringofaríngeas.
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