Refluxo Silencioso: Sintomas e Tratamento

O Refluxo Laringofaríngeo (RFL), conhecido como "refluxo silencioso", é uma condição em que o conteúdo gástrico (ácido ou não-ácido) retorna e atinge a laringe e a faringe. Diferentemente do refluxo gastroesofágico clássico, a RFL frequentemente se manifesta sem os sintomas tradicionais de azia ou dor no peito, apresentando-se com tosse crônica, pigarro, rouquidão e sensação de "bola na garganta" (globus faríngeo). O artigo discute os métodos diagnósticos (pHmetria de 24h, Endoscopia) e as abordagens terapêuticas, que envolvem mudanças dietéticas rigorosas e, em alguns casos, tratamento cirúrgico (Fundoplicatura) para fortalecer a barreira antirrefluxo.
Dr. Octávio Rodrigues

Dr. Octávio Rodrigues

Cirurgião Gastrointestinal

Refluxo Silencioso | Dr. Octávio Rodrigues | Gastroenterologista

Doença do Refluxo Laringofaríngeo (RFL): Desvendando o Mistério do Refluxo Silencioso

Quando se fala em refluxo, a primeira imagem que vem à mente é a da azia (pirose) e da dor no peito. No entanto, existe uma forma de refluxo que age sorrateiramente, sem os sintomas digestivos clássicos. É a Doença do Refluxo Laringofaríngeo (RFL), popularmente chamada de “refluxo silencioso”. Essa condição, que atinge a garganta e as vias respiratórias superiores, é frequentemente subdiagnosticada e pode levar a anos de desconforto, tosse crônica e problemas vocais. É um campo onde a expertise do gastroenterologista é crucial, muitas vezes em colaboração com o otorrinolaringologista.

A Diferença Fundamental: Dois Esfíncteres em Ação

O trato digestivo é protegido por dois esfíncteres musculares que atuam como válvulas. O Esfíncter Esofágico Inferior (EEI), entre o esôfago e o estômago, quando disfuncional, causa o refluxo gastroesofágico (RG) clássico, resultando em azia. O Esfíncter Esofágico Superior (EES), localizado na parte superior do esôfago, é a barreira que protege a garganta (faringe) e a laringe. O RFL ocorre quando o ácido e outras substâncias gástricas (como pepsina e bile) ultrapassam o EEI e, em seguida, falham a barreira do EES, atingindo as estruturas delicadas da laringe e faringe, que são muito mais sensíveis ao dano ácido do que o esôfago.

Sinais e Sintomas Não Típicos do Refluxo Silencioso

A ausência de azia é a característica mais marcante do RFL, levando ao termo “silencioso”. Os pacientes frequentemente buscam o médico por sintomas que parecem ser de origem respiratória ou otorrinolaringológica:

  • **Tosse Crônica:** Persistente e, muitas vezes, pior à noite ou ao acordar.
  • **Pigarro Constante:** A necessidade de “limpar” a garganta repetidamente.
  • **Rouquidão (Disfonia):** Especialmente pela manhã, resultante da inflamação das cordas vocais.
  • **Globus Faríngeo:** Sensação de um nó ou “bola” presa na garganta.
  • **Dor de Garganta Recorrente:** Muitas vezes confundida com faringite.
  • **Dificuldade para Engolir (Disfagia):** Principalmente para líquidos ou saliva.

A exposição crônica da laringe ao conteúdo gástrico pode levar a sérias complicações a longo prazo, incluindo laringite crônica, estenose subglótica e, em casos raros e de longa data, um risco aumentado de câncer de laringe, reforçando a necessidade de diagnóstico e tratamento precisos.

O Desafio do Diagnóstico e os Exames Essenciais

O diagnóstico da RFL pode ser desafiador, pois os sintomas são inespecíficos. O gastroenterologista utiliza uma combinação de avaliação clínica e exames:

  • **Laringoscopia:** Realizada pelo otorrinolaringologista, revela sinais de inflamação na laringe, como edema e vermelhidão.
  • **pHmetria de 24 Horas ou Impedanciometria-pHmetria:** Estes são os padrões ouro. A impedanciometria é particularmente útil na RFL, pois detecta refluxo não-ácido (gases ou líquido levemente ácido) que ainda pode ser irritante para a laringe.
  • **Endoscopia Digestiva Alta:** Embora a RFL frequentemente ocorra sem esofagite, a endoscopia é importante para descartar outras causas e avaliar o Esfíncter Esofágico Inferior (EEI), que pode estar relacionado.

O tratamento da RFL exige uma abordagem mais intensa e prolongada do que o RG clássico, devido à alta sensibilidade da laringe.

Estratégias de Tratamento: Dieta, Medicamentos e Cirurgia

O tratamento da RFL é multifacetado e envolve:

  1. **Mudanças Comportamentais e Dietéticas:** São a base do tratamento. Envolvem evitar refeições grandes perto da hora de dormir (esperar 3-4 horas), elevar a cabeceira da cama, e eliminar ou reduzir drasticamente alimentos e bebidas que relaxam o esfíncter ou aumentam a produção de ácido, como cafeína, chocolate, hortelã, álcool, alimentos gordurosos e cítricos.
  2. **Terapia Medicamentosa:** Geralmente inclui Inibidores da Bomba de Prótons (IBPs) em doses mais altas e por períodos mais longos do que no RG, para reduzir a acidez gástrica.
  3. **Opção Cirúrgica (Fundoplicatura):** Para pacientes que não respondem ao tratamento clínico otimizado, que apresentam um esfíncter inferior muito fraco, ou que desejam interromper o uso contínuo de IBPs, a cirurgia antirrefluxo (como a Fundoplicatura de Nissen) pode ser uma solução permanente. Este procedimento minimamente invasivo (geralmente por laparoscopia) reconstrói e fortalece a válvula antirrefluxo, impedindo que o conteúdo gástrico retorne ao esôfago e, consequentemente, à laringe.

A persistência no tratamento, especialmente nas modificações de estilo de vida, é fundamental para o sucesso a longo prazo e para evitar a progressão das lesões laringofaríngeas.

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